sexta-feira, 6 de julho de 2007
O pôster
Jubiloso o sacana estaca diante do pôster com a foto de um nu. Gostei desse layout - pensa ele, com ares de século vinte-e-um), e o contempla demoradamente, absorvendo cada detalhe como se pudesse só com os olhos percorrer as entranhas e até atravessá-las, ver depois do papel da parede, furar o muro de tijolos e contemplar o céu pálido e antediluviano, que muda como quadros rotativos num segundo, como se constrói um filme. Segura-se em sua bengala, com medo da queda que esse olhar livre possa resultar, mas como se fosse uma cobra, ela desliza em suas mãos ardilosas e estaca no chão com o som oco (o soco) da madeira maciça. Ele observa a queda, insípido, sem reação, até que seus olhos encontram os filetes de madeira do chão e os transpassam, para um grande precipício de 20 metros ou mais, atravessando cada sala. Mas não pode ser, esse olhar perscrutador é vertiginoso demais para se manter constantemente. Senta-se no taco e tenta novamente olhar para o nu, frontal, mas só vê o céu, nebulosamente patético, como se não fosse possível atribuir-lhe um sentido diverso daquele, inanimado e desumano na sua imensidão. Mas era mentira, ele bem sabia, não podia ser que seu olhar esfanicado o dirigisse à isso, se era o contrário, englobar e atribuir ao patético tanta vida que incontestavelmente nada fugia dessa interioridade expandida, porque era ele o mundo. E quando ele se lembrou, teve segundos de completa e infalível percepção do absoluto, que só não continuaram por não ser possível, fisicamente, aguentar esse enlevamento extásico por mais tempo. Oh, como é incrível ser assim, sorri ele...
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