terça-feira, 10 de julho de 2007
sem disfarce.
A melodia composta apenas pelas notas ruins do piano, fazia vibrar os timbanos daqueles ouvidos entupidos de cera. Constatava com meus olhos embaçados, comovidos com minha guinnes, a beleza corrompida dos acordes; e no entantanto, notava no olhar disconecto do rapaz, a ausencia de algo na propria musica. Eu lia e relia as tablaturas, imaginava meus dedos deslizando suavemente nas teclas, até forçosamente afundar arrancando desde de os mais graves aos mais agudos sons. Notas ruins; ele pedia, apenas essas. Eu, mera aprendiz de suas lições, tentava acompanhar suas necessidades musicais a fio, compor pra ele, e por ele, era o meu dever comigo mesma naquele momento. Exigia de mim as mais rudes das notas, as complacentes, de mal-gosto, indelicadas, apenas essas, que nao despertariam beleza alguma em ser nenhum, era esse seu desejo. No entanto, nem eu, nem ele saberíamos desempenhar sentimentos tão subjetivos num instrumento de sons definidissimos. O piano então foi deixado de lado, tornou-se claro: O rapaz gritava pela brutalidade desconhecida de seus dias. gritava pela sonoridade pobre agoniante, berrava pelas notas que quebrariam os vidros que seus próprios gritos nao puderam quebrar. Respirava ofegante querendo preencher cada espaço vazio de seu corpo com o maldito oxigênio traiçoeiro de cada dia, ou com as malditas toxinas dos malditos cigarros dos malditos e infindáveis dias. E batia, batia os pés contra o chão com toda a força que tinha, e respirava de novo, vai fundo de novo. Bendito alivio, maldito tempo: curta duração. Enquanto apreciava o mate tostado, e lambia suavemente os resíduos da espuma deixados sob sua boca, tentando reduzir a agonia intacta, do fracasso na projeção do que viria a ser a sua música, sentiu e ouviu de longe, impetuosamente, o quebrar da melodia insipida que antes havia criado, com a invasão de um estranho: O Si de um baixo, dando forma a melodia que pouco a pouco se formava, tomando conta dos espaços atordoados da musica. Surpreso, o rapaz poderia levantar-se para contracenar com o dito, mal ou bem, individuo que ousara modificar a natureza de seus sons, porém, para maior surpresa ainda, percebera com o desenrolar das novas notas, o sutil desconhecido tomando parte do espaço, que oxigênio algum ou coisa alguma preenchera. O surpreendente novo tornarasse ainda mais uma vertente de suas raizes. Nao hesitou em permanecer sentado onde estava, degustando o estilo, o charme presente, o sabor forte e bem definido de sua deliciosa e estupidamente gelada cerveja, acompanhado do que havia percebido ser sua nova natureza, e enfim, assumira o quanto és bela....
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