segunda-feira, 25 de junho de 2007

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É impossível afirmar com certeza quais são as forças ancestrais que me direcionam para o caminho do mórbido e não escolho essa minha predileção. Coisas melancólicas acontecem comigo, tal como essa que vou agora relatar, sem grande estardalhaço, pois é capaz que não emocione a mais ninguém além de mim. Certa vez, há algum tempo, estávamos eu e meu cachorro passeando pelos campos do interior do Estado. Era uma tarde fria, cinzenta, e às três da tarde já parecia que a noite ia derramar-se em cima de nós, privando-nos da pouca luz que nos guiava bosque adentro. Enlamaçavamos nossos pés e patas e minhas roupas já estavam sujas, mas isso pouco me preocupava e prosseguíamos nosso passeio à esmo, sem grandes espectativas de encontrarmos algo extraordinário. As árvores iam se tornando mais densas ao passo que a noite ia chegando, ou era a impressão da pouca claridade que se extinguia, afinal, eram três da tarde. Pássaros e alguns insetos eram os únicos barulhos que nos circindavam, além, é claro, do vento que ciciava em nossos ouvidos frios. Quando meu cachorro começou a arfar, decidi parar para recuperar o fôlego, apesar de achar melhor continuar andando, para logo voltar para minha casa de campo, onde uma lareira acesa certamente me esperava. E foi quando paramos, algum tempo depois, enquanto eu acariciava a barriga peluda e escura de meu companheiro, que escutamos barulhos de passos em algum lugar não longe de nós. Meu cão logo levantou-se alerta, mas o segurei para ele não desembestar para o desconhecido. Por sorte havia levado comigo uma coleira, o que raramente fazia nesse tipo de passeio, e pude prendê-lo nela para conservá-lo comigo. Ao ouvir o barulho hesitei entre andar em direção à ele ou na direção oposta, mas acabei permanecendo parada, envolvida nessa questão. Ainda pensava o que poderia ser, e imaginando que talvez fosse um bicho perigoso percebi que era realmente a melhor coisa que eu poderia ter feito, do contrário teria atraido a atenção da fera que me perseguiria e eu não teria chance alguma, apesar de acompanhada de meu fiel Joseph, que se sacrificaria por mim e me causaria uma tristeza ainda mais irreparável. Mas o barulho não era de animal algum, e logo vi um vulto caminhando a pouco mais de três metros de mim. Ele não me via, até meu cachorro começar a latir e chamar sua atenção. Então se aproximou. Uma velha, com mais de 60 anos, em farrapos, olhos esbugalhados que me olhavam e pareciam atravessar-me. Ela falava, numa voz rouca e fraca, um nome que não tenho certeza se era Camila ou Jamila, ou Ramila talvez. Meu cachorro desatou a latir e para não causar maiores complicações corri com ele para longe, admito que também estava assustada com aquela figura inesperada. Quando chegamos novamente na estrada soltei meu cachorro da coleira e continuamos nosso caminho para a casa, agora angustiadamente. Contei o caso depois para a empregada da casa e ela me disse que essa velha perdeu a filha há muitos anos e perambula louca procurando encontrá-la, e que provavelmente a menina tinha fugido porque a mãe já tinha problemas psicológicos antes do desaparecimento da filha. Essa é só mais uma história triste e sem propósito.

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