quarta-feira, 20 de junho de 2007

Evoéparano(ico)rmal

Instintivamente abri os olhos durante o sono e foi aí que me deparei pela primeira vez com ele, sentado ao meu lado, na penumbra, visitando-me enquanto dormia. Não consegui distinguir direito dessa vez porque o medo foi mais forte e voltei a cerrar os olhos com força, fingindo para mim que jamais os havia aberto. Mas do que adianta fingir para você mesmo? Simplesmente sabia o que havia acontecido, e durante o dia todo a agonia de chegar de novo a noite foi me tomando de tal forma que achei que uma boa solução era dormir à tarde para ficar bem acordada durante as horas que o sol não clareasse o quarto. Então dormi a tarde toda, mas isso não impediu que a noite chegasse, e à noite, sem resquício de sono, deitei-me de barriga para cima, no escuro do meu quarto, analisando bem cada objeto no escuro, para ver se não estava enganada, se não havia sido um lapso do meu cérebro já tão desgastado, apesar da pouca idade, que teria confundido coisa sem vida com coisa viva. Porém nada se assemelhava à forma humana, nem sequer parecia um vulto assustador. Eram só roupas espalhadas, livros, todas as quinquilharias que permaneciam iguais à falta de luminosidade. Nada ali parecia vivo, muito menos mais vivo que eu, que era como me recordava da visita da noite anterior, que me lançava um olhar aterrador e penetrante naqueles segundos que o mirei. As horas passavam e a noite era longuíssima. Imaginei quantas horas por noite perdíamos dormindo e os motivos pelos quais as pessoas dormem à noite ao invés do dia. Provavelmente existia algo à noite que era melhor não ser visto pelos olhos mortais, pois era quase sempre esse horário o escolhido para abster seu cérebro de todos os sentidos e descansar (aparentemente). Ao menos, concluí, esse algo misterioso não deveria ser perigoso, pois também enquanto dormimos estamos muito indefesos, e mesmo assim, quase sempre, acordamos ilesos. Não é físico, então, esse mau que preferimos não ver, e na noite seguinte experimentei dormir atentamente, procurando algum sinal da presença alheia em meu quarto. Estranhamente meu sonho foi conturbado demais para que eu pudesse acordar, e nele um homem se aproximava de mim e me dizia coisas essenciais, que esqueci quando despertei. Os mistérios do sonho são tantos que é estranho relembrar de algum fragmento durante o dia e ter a sensação daquela recordação que só aconteceu na sua cabeça e mesmo assim te toca, fazendo mesmo suas relações mudarem com àqueles com quem você convive. Por isso nem sempre é bom sonhar com quem você conhece. Mas o homem do meu sonho não era semelhante à ninguém que eu jamais havia visto, e mesmo assim sua figura era nítida em minha mente, e o que eu mais temia era encontrá-lo desperta. Ia ser horrível. Passeia a andar pelas ruas analisando bem cada face, tentando encontrar semelhanças em qualquer pessoa com o homem, mas decerto não acharia nenhuma, pois o que quer que fosse, não estaria ali na luz do dia, foi o que concluí depois das horas de paranóia, agora também acordada. Já não havia mais sossego. Durante três dias e três noites minha vida foi tumultuada por essa monomania absurda desse tal homem que me visitou e me falou coisas que eu já não tinha nenhum vestígio, a não ser sua terrível face bem marcada na minha memória do que não existe. Não aguentei e decidi compartilhar com alguém que eu tinha certeza que fosse real, e o conselho que ouvi não foi nada animador: relaxa, foi o que disse meu jornaleiro, pessoa escolhida por mim para abrir meu coração. Me senti uma idiota, fora o fato de agora parecer uma louca. Mas agora era questão de honra, precisaria travar algum contato com esse ser das trevas que me fitava durante meu sono e queria se comunicar comigo de alguma forma. Nesse dia ansiava pela noite e quando ela chegou tomei um bom copo de leite para dormir mais rápido e acordar de madrugada. Tinha certeza que ele estaria lá. Dormi. Sonhava estar andando por um campo, pacificamente, quando tropeçava em uma pequena pedra e isso me fez acordar, mas só aparentemente, pois entrei em outro sonho no qual me via dormindo na minha cama e do meu lado permanecia parado o homem, me olhando com olhos maus, e eu, indefesa, babava em meu travesseiro. Tentei me acordar em vão e era estranho me ver dormindo, como se estivesse mesmo fora do meu corpo, então decidi parar de tentar me acordar e olhar bem para o homem que estava do meu lado. Mas ele virou e olhou para eu que olhava para ele fora de mim e isso me deu tanto medo, como se ele me visse além de me ver, que voltei sobressaltada para o meu corpo e acordei repentinamente e suada, com taquecardia. Olhei no relógio e eram quatro e vinte e um. Decidi ir a um psiquiatra hoje.

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