quarta-feira, 27 de junho de 2007

Droga!

Atropelei O idiota.
Como pude?

Coma

te tinha junto ao meu seio. junto ao meu seio tinha também uma dor. junto essa dor tinham tantos e tantos fios. junto a esses fios, um unico monitor.
ouvia sempre, o contínuo apitar da maquina, que apitava também a máquina minha.
quando a noite, vazio ficava o quarto, no meu leito esperava passar o calafrio.
era a febre.
eu sentia escorrer o suor que alertava,
era a febre;
essa que jamais passava.
foi então que entrou no meu quarto. e quase nada havia nele além de mim.
estava escuro, janela semi-aberta:
senti sua presença, parecia um vento.
sabia o que viria depois.
Senti junto a o empalidecer da alma,
o escorrer da ultima gota de suor.
Queria ver mas nada via.
As pálpebras, mais que pesadas, impediam.
.
de repente; não havia mais gravidade.
estava leve, como um vento seria.
acabara a minha febre.
o apito cessara.
finalmente, não era mais uma máquina.
estava livre de mim.

O Idiota - Dostoiévski

Segue o discurso de Hipólito, um garoto de 17 anos tuberculoso, personagem com poucas aparições no livro gigante O Idiota, que estou lendo:
" - Sabem que vim para cá para contemplar as árvores? Aquelas ali! - e apontou para as árvores do parque. - Será isso ridículo, será? Não haveria nada de ridículo nisso? - perguntou com ar sério a Lizaveta Prokofievna, acabando por ficar imerso em pensamentos; um minuto depois soergueu a cabeça e começou com ar perscrutador a encarar todo o grupo; procurava Ievgeni Pavlovitch que estava de pé, bem perto, à direita dele, no mesmo lugar de antes; mas, como tinha esquecido, o procurava. - Ah! O senhor não foi embora! - Encontrou-o, por fim. - O senhor ainda há pouco estava rindo por eu querer discursar da janela para a rua, durante um quarto de hora...Mas saberá o senhor que ainda não fiz dezoito anos? Descansei tanto sobre o meu travesseiro, tanto espiei através da janela e tanto e tanto pensei sobre tudo e sobre todos...que...um homem morto não tem idade, anote bem isso. Foi o que eu pensei na semana passada ao ficar as noites acordado...E quer saber que é que o senhor receia acima de tudo? Antes de mais nada o senhor receia a nossa sinceridade, muito embora nos menospreze! A senhora pensou que eu queria me rir da senhora, Lizaveta Prokofievna! Não, eu não me estava rindo da senhora, eu só queria lhe ser agradável. Kolia me disse que o príncipe achava que a senhora não passava de uma criança...e é isso mesmo...Sim...mas, o que? Que é que ia dizer?...-Tapou a cara com as mãos e ficou a refletir:- Oh! Sim, quando a senhora me disse ainda agora "Adeus!" me veio logo este pensamento: " Esta gente toda aqui não existirá mais, nunca mais, para mim! E estas árvores também...Não haverá mais nada para mim a não ser a parede de tijolos vermelhos, as paredes da casa de Meyer...em frente da minha janela...Bem, dize-lhes tudo isso...tenta dizer-lhes; alí está uma beleza de rapariga...que adianta? Estás morto, sabes? Apresenta-te como homem morto; dize-lhes que o "homem morto tem licença de dizer o que quiser...e que a princesa Maria Alexeievna não achará defeito!" Ah! ah! Não se riem?...- Olhou-os a todos, um por um, com ar desconfiado. - Não sabem que idéias me vêm à cabeça quando estou com ela pousada no travesseiro...E mais, estou convencido de que a natureza é muito irônica...Disseram ainda há pouco que sou um ateu, mas conhecem ou não conhecem os caprichos da natureza?...De que é que estão rindo, outra vez? São terrivelmente cruéis, - rematou, com uma indignação lúgubre, olhando-os a todos. - Eu não corrompi Kolia, - concluiu, num tom inteiramente outro, sério e convicto, como se recordando outra vez de qualquer cousa.
(...)
- Eu...lhe...- começou ele, jubiloso, - a senhora não imagina quanto eu... Ele sempre me falava tão entusiasticamente da senhora, ele, alí - e apontou Kolia: - Eu gosto do entusiasmo dele. Eu nunca o corrompi! É o único amigo que deixo...Bem gostaria eu de deixar um amigo em cada um, em cada um, mas não me resta senão ele...Eu pensava fazer muito, eu tinha o direito...Oh! quanto eu desejava! Mas agora não desejo nada. A mim mesmo me prometi não desejar nada; eles que procurem a verdade sem mim! Sim, que a natureza é irônica, é! Por que - resumiu ele com veemência, - cria ela os melhores seres apenas para se rir deles, depois? Foi obra dela a única criatura reconhecida sobre a terra como perfeição...foi ainda ela quem mostrou essa criatura aos homens, como foi ela quem decretou que essa criatura dissesse tais palavras pelas quais tanto sangue foi derramado, tanto, tanto que, se o fosse duma só vez, todos os homens se teriam afogado nele. Ah! Bem bom é que eu vá morrer! Talvez também eu viesse a proferir alguma mentira horrível, a natureza me teria feito cair nessa armadilha...Mas eu não corrompi ninguém. Eu queria viver para a felicidade de todos os homens, só para descobrir e proclamar a verdade... Olhando através da janela para as paredes de Meyer, sonhei discursar apenas pelo espaço dum quarto de hora, o bastante para convencer todo o mundo, todo o mundo! E ao menos, uma vez na minha vida, encontrei os senhores, já que não tenho outros; e vejam só o que resultou de tudo isso é que também aqui me desprezam! Portanto, não passo dum doido! Portanto não sou necessário aqui! Portanto já é tempo que eu me vá! Não consegui deixar atrás de mim nenhuma memória, nenhum eco, nenhum traço, nenhuma ação; não preguei sequer uma única verdade!... E não riam do camarada louco! Esqueçam! Esqueçam tudo! Esqueçam, por favor, não sejam tão cruéis! Sabem, porventura, que se não me tivesse sobrevindo esta tuberculose eu me mataria?"

terça-feira, 26 de junho de 2007

J.W.H.

Cerimoniosamente lamento por ser um robô, homeostasicamente falando. Meu organismo não cessa, não há falências, porque me encontro no auge de meu vigor. Sou como um vaqueiro forte que dança quadrilha com magniliquência e suavidade, alternadamente. E que grandiosos meus momentos de pico! Quão trágicos meus gestos!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

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É impossível afirmar com certeza quais são as forças ancestrais que me direcionam para o caminho do mórbido e não escolho essa minha predileção. Coisas melancólicas acontecem comigo, tal como essa que vou agora relatar, sem grande estardalhaço, pois é capaz que não emocione a mais ninguém além de mim. Certa vez, há algum tempo, estávamos eu e meu cachorro passeando pelos campos do interior do Estado. Era uma tarde fria, cinzenta, e às três da tarde já parecia que a noite ia derramar-se em cima de nós, privando-nos da pouca luz que nos guiava bosque adentro. Enlamaçavamos nossos pés e patas e minhas roupas já estavam sujas, mas isso pouco me preocupava e prosseguíamos nosso passeio à esmo, sem grandes espectativas de encontrarmos algo extraordinário. As árvores iam se tornando mais densas ao passo que a noite ia chegando, ou era a impressão da pouca claridade que se extinguia, afinal, eram três da tarde. Pássaros e alguns insetos eram os únicos barulhos que nos circindavam, além, é claro, do vento que ciciava em nossos ouvidos frios. Quando meu cachorro começou a arfar, decidi parar para recuperar o fôlego, apesar de achar melhor continuar andando, para logo voltar para minha casa de campo, onde uma lareira acesa certamente me esperava. E foi quando paramos, algum tempo depois, enquanto eu acariciava a barriga peluda e escura de meu companheiro, que escutamos barulhos de passos em algum lugar não longe de nós. Meu cão logo levantou-se alerta, mas o segurei para ele não desembestar para o desconhecido. Por sorte havia levado comigo uma coleira, o que raramente fazia nesse tipo de passeio, e pude prendê-lo nela para conservá-lo comigo. Ao ouvir o barulho hesitei entre andar em direção à ele ou na direção oposta, mas acabei permanecendo parada, envolvida nessa questão. Ainda pensava o que poderia ser, e imaginando que talvez fosse um bicho perigoso percebi que era realmente a melhor coisa que eu poderia ter feito, do contrário teria atraido a atenção da fera que me perseguiria e eu não teria chance alguma, apesar de acompanhada de meu fiel Joseph, que se sacrificaria por mim e me causaria uma tristeza ainda mais irreparável. Mas o barulho não era de animal algum, e logo vi um vulto caminhando a pouco mais de três metros de mim. Ele não me via, até meu cachorro começar a latir e chamar sua atenção. Então se aproximou. Uma velha, com mais de 60 anos, em farrapos, olhos esbugalhados que me olhavam e pareciam atravessar-me. Ela falava, numa voz rouca e fraca, um nome que não tenho certeza se era Camila ou Jamila, ou Ramila talvez. Meu cachorro desatou a latir e para não causar maiores complicações corri com ele para longe, admito que também estava assustada com aquela figura inesperada. Quando chegamos novamente na estrada soltei meu cachorro da coleira e continuamos nosso caminho para a casa, agora angustiadamente. Contei o caso depois para a empregada da casa e ela me disse que essa velha perdeu a filha há muitos anos e perambula louca procurando encontrá-la, e que provavelmente a menina tinha fugido porque a mãe já tinha problemas psicológicos antes do desaparecimento da filha. Essa é só mais uma história triste e sem propósito.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Evoéparano(ico)rmal

Instintivamente abri os olhos durante o sono e foi aí que me deparei pela primeira vez com ele, sentado ao meu lado, na penumbra, visitando-me enquanto dormia. Não consegui distinguir direito dessa vez porque o medo foi mais forte e voltei a cerrar os olhos com força, fingindo para mim que jamais os havia aberto. Mas do que adianta fingir para você mesmo? Simplesmente sabia o que havia acontecido, e durante o dia todo a agonia de chegar de novo a noite foi me tomando de tal forma que achei que uma boa solução era dormir à tarde para ficar bem acordada durante as horas que o sol não clareasse o quarto. Então dormi a tarde toda, mas isso não impediu que a noite chegasse, e à noite, sem resquício de sono, deitei-me de barriga para cima, no escuro do meu quarto, analisando bem cada objeto no escuro, para ver se não estava enganada, se não havia sido um lapso do meu cérebro já tão desgastado, apesar da pouca idade, que teria confundido coisa sem vida com coisa viva. Porém nada se assemelhava à forma humana, nem sequer parecia um vulto assustador. Eram só roupas espalhadas, livros, todas as quinquilharias que permaneciam iguais à falta de luminosidade. Nada ali parecia vivo, muito menos mais vivo que eu, que era como me recordava da visita da noite anterior, que me lançava um olhar aterrador e penetrante naqueles segundos que o mirei. As horas passavam e a noite era longuíssima. Imaginei quantas horas por noite perdíamos dormindo e os motivos pelos quais as pessoas dormem à noite ao invés do dia. Provavelmente existia algo à noite que era melhor não ser visto pelos olhos mortais, pois era quase sempre esse horário o escolhido para abster seu cérebro de todos os sentidos e descansar (aparentemente). Ao menos, concluí, esse algo misterioso não deveria ser perigoso, pois também enquanto dormimos estamos muito indefesos, e mesmo assim, quase sempre, acordamos ilesos. Não é físico, então, esse mau que preferimos não ver, e na noite seguinte experimentei dormir atentamente, procurando algum sinal da presença alheia em meu quarto. Estranhamente meu sonho foi conturbado demais para que eu pudesse acordar, e nele um homem se aproximava de mim e me dizia coisas essenciais, que esqueci quando despertei. Os mistérios do sonho são tantos que é estranho relembrar de algum fragmento durante o dia e ter a sensação daquela recordação que só aconteceu na sua cabeça e mesmo assim te toca, fazendo mesmo suas relações mudarem com àqueles com quem você convive. Por isso nem sempre é bom sonhar com quem você conhece. Mas o homem do meu sonho não era semelhante à ninguém que eu jamais havia visto, e mesmo assim sua figura era nítida em minha mente, e o que eu mais temia era encontrá-lo desperta. Ia ser horrível. Passeia a andar pelas ruas analisando bem cada face, tentando encontrar semelhanças em qualquer pessoa com o homem, mas decerto não acharia nenhuma, pois o que quer que fosse, não estaria ali na luz do dia, foi o que concluí depois das horas de paranóia, agora também acordada. Já não havia mais sossego. Durante três dias e três noites minha vida foi tumultuada por essa monomania absurda desse tal homem que me visitou e me falou coisas que eu já não tinha nenhum vestígio, a não ser sua terrível face bem marcada na minha memória do que não existe. Não aguentei e decidi compartilhar com alguém que eu tinha certeza que fosse real, e o conselho que ouvi não foi nada animador: relaxa, foi o que disse meu jornaleiro, pessoa escolhida por mim para abrir meu coração. Me senti uma idiota, fora o fato de agora parecer uma louca. Mas agora era questão de honra, precisaria travar algum contato com esse ser das trevas que me fitava durante meu sono e queria se comunicar comigo de alguma forma. Nesse dia ansiava pela noite e quando ela chegou tomei um bom copo de leite para dormir mais rápido e acordar de madrugada. Tinha certeza que ele estaria lá. Dormi. Sonhava estar andando por um campo, pacificamente, quando tropeçava em uma pequena pedra e isso me fez acordar, mas só aparentemente, pois entrei em outro sonho no qual me via dormindo na minha cama e do meu lado permanecia parado o homem, me olhando com olhos maus, e eu, indefesa, babava em meu travesseiro. Tentei me acordar em vão e era estranho me ver dormindo, como se estivesse mesmo fora do meu corpo, então decidi parar de tentar me acordar e olhar bem para o homem que estava do meu lado. Mas ele virou e olhou para eu que olhava para ele fora de mim e isso me deu tanto medo, como se ele me visse além de me ver, que voltei sobressaltada para o meu corpo e acordei repentinamente e suada, com taquecardia. Olhei no relógio e eram quatro e vinte e um. Decidi ir a um psiquiatra hoje.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Timor (oração dos habitantes, clamando perdão ao cadáver inimigo)

" Não te encolerizes contra nós porque temos conosco tua cabeça. Se a sorte não nos tivesse sido favorável, seriam provavelmente nossas cabeças que se encontrariam expostas na tua aldeia. (...) Por que foste nosso inimigo? Não teríamos feito melhor permanecendo amigos? Teu sangue não teria sido vertido, nem cortada tua cabeça!"

quarta-feira, 13 de junho de 2007

infantilmente me recordo com desgosto da minha vileza prematura, e proclamo que agora quero ser boa. talvez seja a doença que me aproxima da morte, mas ainda não estou nem perto de buscar por redenção, apenas não me apeteço mais em contar meus diversos causos absurdos e suburbanos. e quem sabe consigo escrever sobre algo que não seja eu algum dia e saia razoável, ou ao menos melhor que os contos do colegial, que não eram de todo ruins. agora, por que a capacidade de abstração de si na maioria dos indivíduos que conheço é tão baixa, não consigo entender. é intrigante como é raro sair uma boa e longa obra literária de ficção brasileira (posso estar errada, mas não me recordo de tantas) e como é corriqueiro pessoas falando sobre seus próprios umbigos com orgulho. sem dúvida alguma existem diversos escritores brasileiros fantásticos, maravilhosos, mas o que quero dizer é que o impulso da escrita nas pessoas é motivado demais pelo seu sentimento e isso estraga muito. também devo levar em conta que o meio que mais tenho acesso é um péssimo parâmetro de análise, já que um blogue nada mais é que um diarinho virtual, apesar de ter revelado escritores brilhantes. esse balanço não tem a pretensão de ser uma dissertação e estou escrevendo o que penso, da maneira confusa que o pensamento se apresenta, tentando chegar a algum lugar que pode ser até mesmo que não alcance, mas certo. singelamente admito que, segundo ezra pound eu sou uma merda, mas com muito esforço um dia passarei a ser uma merda em menor grau. se ao menos eu soubesse o que procuro.

terça-feira, 12 de junho de 2007

The End

cilibrina. de novo arrastando-se pelos obscuros becos. aqui eu te enxoto, doença maldita e carbura meu cérebro essa pequenina ferida que coça, acima de tudo. deveria eu parar de usar drogas? perco meu apetite, minha inspiração, meu insípido sacana em junho diluviano renasce e brilhará como ouro, ainda mais até, depois de um tempo, é claro, porque não sou, assim, um gênio, que eu saiba, mas tem quem considere. e partindo do zero arranco-te a cabeça, já que ainda não tenho sentido. mas aos poucos tudo ganhará um contorno, ao menos. aproveitem bem enquanto não secam. teve uma época que eu escoava, agora nem gotejar, no máximo definho. só até alguém jogar um pouco de qualquer líquido, daí volta. aqui, um começo. vivas! sinto-me radiante coberta de purpúrea cobertura. sem limites.