Segue o discurso de Hipólito, um garoto de 17 anos tuberculoso, personagem com poucas aparições no livro gigante O Idiota, que estou lendo:
" - Sabem que vim para cá para contemplar as árvores? Aquelas ali! - e apontou para as árvores do parque. - Será isso ridículo, será? Não haveria nada de ridículo nisso? - perguntou com ar sério a Lizaveta Prokofievna, acabando por ficar imerso em pensamentos; um minuto depois soergueu a cabeça e começou com ar perscrutador a encarar todo o grupo; procurava Ievgeni Pavlovitch que estava de pé, bem perto, à direita dele, no mesmo lugar de antes; mas, como tinha esquecido, o procurava. - Ah! O senhor não foi embora! - Encontrou-o, por fim. - O senhor ainda há pouco estava rindo por eu querer discursar da janela para a rua, durante um quarto de hora...Mas saberá o senhor que ainda não fiz dezoito anos? Descansei tanto sobre o meu travesseiro, tanto espiei através da janela e tanto e tanto pensei sobre tudo e sobre todos...que...um homem morto não tem idade, anote bem isso. Foi o que eu pensei na semana passada ao ficar as noites acordado...E quer saber que é que o senhor receia acima de tudo? Antes de mais nada o senhor receia a nossa sinceridade, muito embora nos menospreze! A senhora pensou que eu queria me rir da senhora, Lizaveta Prokofievna! Não, eu não me estava rindo da senhora, eu só queria lhe ser agradável. Kolia me disse que o príncipe achava que a senhora não passava de uma criança...e é isso mesmo...Sim...mas, o que? Que é que ia dizer?...-Tapou a cara com as mãos e ficou a refletir:- Oh! Sim, quando a senhora me disse ainda agora "Adeus!" me veio logo este pensamento: " Esta gente toda aqui não existirá mais, nunca mais, para mim! E estas árvores também...Não haverá mais nada para mim a não ser a parede de tijolos vermelhos, as paredes da casa de Meyer...em frente da minha janela...Bem, dize-lhes tudo isso...tenta dizer-lhes; alí está uma beleza de rapariga...que adianta? Estás morto, sabes? Apresenta-te como homem morto; dize-lhes que o "homem morto tem licença de dizer o que quiser...e que a princesa Maria Alexeievna não achará defeito!" Ah! ah! Não se riem?...- Olhou-os a todos, um por um, com ar desconfiado. - Não sabem que idéias me vêm à cabeça quando estou com ela pousada no travesseiro...E mais, estou convencido de que a natureza é muito irônica...Disseram ainda há pouco que sou um ateu, mas conhecem ou não conhecem os caprichos da natureza?...De que é que estão rindo, outra vez? São terrivelmente cruéis, - rematou, com uma indignação lúgubre, olhando-os a todos. - Eu não corrompi Kolia, - concluiu, num tom inteiramente outro, sério e convicto, como se recordando outra vez de qualquer cousa.
(...)
- Eu...lhe...- começou ele, jubiloso, - a senhora não imagina quanto eu... Ele sempre me falava tão entusiasticamente da senhora, ele, alí - e apontou Kolia: - Eu gosto do entusiasmo dele. Eu nunca o corrompi! É o único amigo que deixo...Bem gostaria eu de deixar um amigo em cada um, em cada um, mas não me resta senão ele...Eu pensava fazer muito, eu tinha o direito...Oh! quanto eu desejava! Mas agora não desejo nada. A mim mesmo me prometi não desejar nada; eles que procurem a verdade sem mim! Sim, que a natureza é irônica, é! Por que - resumiu ele com veemência, - cria ela os melhores seres apenas para se rir deles, depois? Foi obra dela a única criatura reconhecida sobre a terra como perfeição...foi ainda ela quem mostrou essa criatura aos homens, como foi ela quem decretou que essa criatura dissesse tais palavras pelas quais tanto sangue foi derramado, tanto, tanto que, se o fosse duma só vez, todos os homens se teriam afogado nele. Ah! Bem bom é que eu vá morrer! Talvez também eu viesse a proferir alguma mentira horrível, a natureza me teria feito cair nessa armadilha...Mas eu não corrompi ninguém. Eu queria viver para a felicidade de todos os homens, só para descobrir e proclamar a verdade... Olhando através da janela para as paredes de Meyer, sonhei discursar apenas pelo espaço dum quarto de hora, o bastante para convencer todo o mundo, todo o mundo! E ao menos, uma vez na minha vida, encontrei os senhores, já que não tenho outros; e vejam só o que resultou de tudo isso é que também aqui me desprezam! Portanto, não passo dum doido! Portanto não sou necessário aqui! Portanto já é tempo que eu me vá! Não consegui deixar atrás de mim nenhuma memória, nenhum eco, nenhum traço, nenhuma ação; não preguei sequer uma única verdade!... E não riam do camarada louco! Esqueçam! Esqueçam tudo! Esqueçam, por favor, não sejam tão cruéis! Sabem, porventura, que se não me tivesse sobrevindo esta tuberculose eu me mataria?"
quarta-feira, 27 de junho de 2007
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Um comentário:
oi senhora mundana danada!
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